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Recife,
9/2/2010 08:12:52 |
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“QUEM ESTÁ NO SERVIÇO
PÚBLICO
ESTÁ MAIS PRÓXIMO DA
FONTE DA FELICIDADE” |
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| O Lama
Padma Samten, primeiro lama ordenado no
Brasil, é gaúcho
e, com o nome de Alfredo Aveline, foi professor do
departamento de Física da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul por 25 anos. Autor de quatro
livros - Meditando a Vida, A Jóia
dos Desejos, O Lama e o Economista: Diálogos
Sobre Budismo, Economia e Ecologia (este em
parceria com o economista Vitor Caruso Jr.) e Relações
e Conflitos -, ele esteve no Recife no último
mês de março, realizando palestras
e ministrando cursos. Em suas falas, o lama relaciona
a visão
budista com situações vivenciadas no
dia-a-dia e questões ligadas à saúde, à psicologia, à educação, à ecologia, à economia, à administração.
Ele falou ao ComunicaRH sobre
serviço público e relações
no ambiente de trabalho: |
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| Estruturas pré-determinadas -
Na visão budista,
nós dizemos: é uma situação não
só dos seres humanos, mas de todos os seres, o aspecto
de nós termos ações que são previamente
programadas. Os pinheiros nascem pontudos
em direção ao céu, as figueiras abrem
grandes galhos em direções horizontais, a grama é rasteira,
os cachorros não podem passar por uma árvore
ou por um poste. São estruturas de escolhas previamente
determinadas. Ainda assim, nós não temos uma
figueira igual à outra, não temos um cachorro
igual ao outro, mas nós temos tendências dentro
deles que são semelhantes. Quando nós percebemos
que temos essas tendências,
descobrimos que há uma espécie de prisão,
que nós seguimos fazendo as mesmas coisas. Essas prisões
se manifestam como uma perda de liberdade daquilo que há mais
profundo dentro de nós. Vamos supor: nós queremos
praticar compaixão, mas quando nós chegamos
perto das pessoas com quem gostaríamos de praticar
compaixão, nós temos um comportamento agressivo.
Por quê? Porque brota dentro de nós um comportamento
problemático. Então, o Buda diz: nós
não conseguimos ajudar as pessoas, não conseguimos
o comportamento adequado porque nós temos essas obscuridades
mentais que brotam. Quando nós estudamos, por exemplo,
a questão da identidade, nós vamos ver que
o que nos caracteriza, a identidade, são justamente
esse fatores estruturados dentro de nós que definem
como nós vamos viver as relações. |
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| Serviço público -
Eu posso ter relações negativas comigo
mesmo ou relações positivas comigo – por
exemplo, cigarro, açúcar, sedentarismo,
gordura podem produzir coisas negativas para mim, mas
eu não consigo escapar. Nós temos estruturas
que sabotam a relação conosco e temos estruturas
que sabotam a relação com os outros. Do
mesmo modo, nós nos relacionamos com a humanidade.
Humanidade que, no fim, vai ser representada pelo poder
público. A humanidade é extremamente importante
porque ela representa uma qualidade abstrata de nós
trazermos benefício aos outros através
de uma mente coletiva. Então, a humanidade é uma
inteligência. É uma inteligência que,
por exemplo, cuida das estradas. As pessoas nascem e
morrem. As estradas não são de ninguém,
elas são dessa inteligência coletiva que é a
humanidade. As pessoas que construíram as estradas
já morreram, mas as estradas seguem. E linhas
telefônicas, rádios, televisões,
espaços públicos. Tudo isso é gerido
por uma inteligência que não morre quando
as pessoas morrem. Ela segue. Então, é necessário
a gente compreender que essa inteligência é protetora,
ela é aperfeiçoável, nós,
enquanto indivíduos, podemos contribuir para isso
e nos beneficiar dessa inteligência coletiva. Mas
se nós sabotarmos essa inteligência coletiva,
isso é um problema. As pessoas que estão
no serviço público são os braços,
são o corpo dessa inteligência coletiva.
Elas deveriam entender isso. Elas nascem e morrem, elas
vão ser substituídas por outras, as funções
delas têm que seguir. Se as pessoas estabelecerem
uma relação negativa com essa inteligência
coletiva, como, por exemplo, se apropriarem do poder
dessa inteligência coletiva para benefício
próprio, elas estão sabotando, estão
estabelecendo relações negativas. A gente
não precisa culpar as pessoas porque isso acontece.
Nós não somos culpados das próprias
ações negativas, são resultados
das nossas próprias estruturas. Mas as pessoas,
mesmo não sendo culpadas, sofrem por isso porque,
ao fazerem ações negativas, ainda que elas |
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| achem que têm vantagem, elas estão
prejudicando a todos e elas prejudicam a elas mesmas. Quem
está no
serviço público está mais próximo
da fonte da felicidade. A fonte da felicidade é nós
trazermos benefícios aos outros, é nós
estarmos próximos de inteligências mais amplas,
que não são inteligências pessoais. Quem
está no serviço público é braços
e pernas dessa inteligência muito ampla. Se
nós
conseguirmos agir dessa maneira, nós vamos nos sentir
felizes como um médico que, num hospital público,
recebe alguém acidentado e consegue socorrer essa
pessoa. Mesmo que ele siga anônimo, o outro não
se lembre mais dele, ele sabe que fez isso. Essa inteligência
coletiva, na visão budista, já é expressão
do próprio Buda primordial, expressão de uma
bondade natural. Nós vamos dizer que essa bondade
natural tem essa origem porque mesmo que eu não ganhe
nada para mim, eu descubro que eu ganho felicidade. Eu me
sinto sustentado, surge uma energia que me sustenta. |
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| Organizações - No ambiente
das organizações, nós vamos encontrar
os mesmos problemas. Uma organização tem uma
inteligência coletiva própria. É necessário
que essa inteligência coletiva da organização
seja positiva. Vamos dizer assim: eu tenho uma organização
muito eficiente que produz armas. Ela não é uma
organização positiva propriamente, ela vai
estar produzindo problemas. Agora, vamos supor que a empresa
tenha méritos. Nós podemos estar lá dentro
com as nossas estruturas cármicas. Então, qualquer
coisa que aconteça pode produzir problemas na nossa
relação com os outros, problemas na relação
com a inteligência coletiva da empresa, inteligência
da humanidade, inteligência do ambiente... e conosco
mesmo. A gente pode eventualmente castigar nosso
próprio
corpo, produzir problemas de saúde, devido à forma
como nós estamos lidando com isso. Nos ambientes de
empresa também. Nós temos estruturas que decidem
por nós, nós podemos estar operando com isso
de forma inconsciente. |
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Relações no trabalho -
O mundo espelha nossas estruturas subjetivas, nós
colocamos essas estruturas no objeto que vemos. Quando
uma pessoa nos perturba, atribuímos nossa perturbação às
características dessa pessoa. Mas podemos ultrapassar
essa perturbação pela consciência.
O budismo elucida nossas estruturas na medida que vamos
contemplá-las internamente. Quem é dominado
por um processo cármico responde sempre do mesmo
jeito, mas há um grau de liberdade. A pessoa me
perturba... ou não; podemos manifestar
um aspecto explosivo... ou não. No
budismo, a gente diz: é necessário que a gente dê nascimento,
isto é, eu mudo minhas estruturas internas e passo
a ver os outros conscientemente de uma forma na qual
eu descubro as qualidades positivas dele. Em vez de eu
congelar o outro nos seus problemas e nas suas limitações,
eu vejo o potencial do outro, eu o vejo muito além
da aparência que ele tem hoje, eu o vejo também
livre dos obstáculos que ele está manifestando. |
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